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Dificuldade na fala e na alimentação: qual a relação?


Vou começar descrevendo o caso do Thomas.
 
Thomas tem 2 aninhos, é filho único, é uma criança saudável, sua gestação, parto e todo início do desenvolvimento ocorreram sem problemas. No entanto, quando chegou a época de introduzir as papinhas, ele começou a ter dificuldades neste processo.
Thomas chorava, recusava a papinha e às vezes, sentia até náuseas. Os pais insistiram por mais um tempo, até que acabaram desistindo e a mãe voltou a dar apenas o peito. Com 8 meses, houve nova tentativa, dessa vez, ele até aceitou melhor a papinha, mas por volta de 1 aninho, quando os pais tentaram inserir pedacinhos maiores, novamente o problema voltou. Ele cuspia, sentia náuseas e não conseguia comer e assim, a papinha foi se mantendo até 18 meses, a alimentação foi se tornando cada vez mais difícil, e na sequência, os pais começaram a perceber que a fala também dava sinais de um atraso, ele tinha um repertório pequeno de palavrinhas e tinha momentos, que falava na “língua dele”, parecia um outro idioma.


A pergunta é: será que existe uma relação entre a dificuldade para se alimentar e o aparecimento tardio da fala ou uma fala com pouca clareza?
SIM!

Dificuldade alimentar pode ser explicada por várias causas: trauma alimentar (crianças que tiveram episódios de engasgo, pais que ficam com medo de alimentar a criança), doenças gastrointestinais (como refluxo, esofagite), doenças respiratórias, experiências emocionais negativas (crianças que são alimentadas à força). Neste texto, porém, eu quero comentar sobre uma causa específica, que é a dificuldade de integração sensorial, onde a textura ou a sensação do alimento na boca é desconfortável para a criança. Algumas crianças são hipersensíveis ou hiposensíveis.

Crianças hipersensíveis podem apresentar os seguintes sinais: evitar levar objetos à boca (até para pegar chupeta ou mesmo a mamadeira pode ter sido difícil), perceber variações mínimas do sabor do alimento, não tolerar algumas texturas, nausear ou vomitar ao sentir o cheiro, ou a consistência, podem chorar muito para escovar os dentes.
Crianças hiposensíveis já não demonstram muito noção de que estão saciadas, preferem sabores mais fortes, picantes, ácidos, lambe ou experimenta objetos não comestíveis, colocam muitos pedaços na boca de uma só vez.

Falhas neste processo de integração sensorial poderão levar a à dificuldades no desenvolvimento da fala. O adequado input sensorial é essencial para o planejamento e programação dos movimentos necessários para comer e para falar. Essas dificuldades alimentares precoces pode ser o primeiro sinal de que a criança apresenta uma imaturidade motora-oral ou até mesmo pode ser o indicativo de alguma falha no planejamento dos movimentos.

Crianças com Atraso Motor de Fala ou Apraxia de Fala na Infância, geralmente apresentam histórico de dificuldades alimentares associadas a um repertório reduzido de fala. Podem ser bebês quietinhos, que balbuciaram pouco ou com pobre variação de sílabas (alguns, os pais inclusive referem que apenas produziam vogais “aaa” e não sílabas “papa, dada, mama”, como é o esperado).

Estas crianças demonstram ter medo de comer, ou de perceber o alimento dentro da boca, não conseguem dosar o tamanho da mordida, são incoordenadas, possuem repertório alimentar restrito (recusa os alimentos pela textura, cor, sabor, consistência), demonstram desinteresse para comer, mesmo estando com fome, podem ter dificuldade para alimentos mais sólidos, não gostam de frutas (podem ser seletivas).

Algumas recomendações gerais e importantes: não pressione a criança para comer, usar distratores, como assistir desenhos enquanto come, poderá ajudar por um tempo, mas isso não é adequado. Formas disfarçadas de pressão também devem ser evitadas (“se você comer a mamãe fica feliz”, “se você comer, você pode assistir”, “experimenta, só mais uma colherada”, “você vai ficar fraquinho, vai para o hospital”, “se você não comer, não vai brincar”). Isso só irá agravar o problema e transformará o momento da refeição, que deve ser prazeroso, em algo muito aversivo, tenso, tanto para a criança como para os pais.

Algumas dicas: o aprendizado para comer tem etapas (primeiro, vem o tolerar, ver o alimento, interagir, cheirar, tocar, experimentar, para só depois comer). Importante respeitar estas etapas, importante a criança ter modelos de refeição (ver os pais comendo), não fique oferecendo ou pedindo para a criança comer, instigue a curiosidade dela (faça comentários positivos “hum..esse biscoito faz croc croc dentro da boca”..”hum.. parece uma bolinha dentro da boca, parece uma batatinha etc.” a criança vai começar a ter curiosidade. Convidar amigos, como o michey, a pepa, o homem aranha, para comer junto com vocês e deixar a criança serví-los, é também uma estratégia divertida e que ajuda. 

Aprender a comer é um PROCESSO, dá trabalho, é preciso muita paciência, mas é possível!. Aos pouquinhos, a criança vai se dessensibilizando, e o comer vira algo prazeroso. Deixar a criança com fome também não é uma estratégia adequada: A FOME NÃO FARÁ A CRIANÇA COMER! Tem crianças que não sabem comer, não sabem mastigar, não sabem lidar com o alimento dentro da boca. São sensíveis, por favor, pais, não esqueçam disso.

A forma como a criança percebe o alimento não é igual a vocês. Para vocês pode ser apenas um prato de espaguete, mas para a criança aquilo mais parece um prato cheio de minhocas! Para você é só uma escovinha de dente, mas para a criança aquilo é uma vassoura dentro da boca dela. Não é frescura, não é culpa da mãe, do pai, da criança ...DEFINITIVAMENTE NÃO! Isso pode ser uma dificuldade. Comer, falar são habilidades aprendidas e nem todas as crianças aprenderão naturalmente, parte delas, precisará de ajuda.

Queridos pais, não deixem de procurar uma ajuda profissional. Tem fonoaudiólogas que são especializadas em dificuldades alimentares. É importante, não deixar de considerar essa relação tão forte entre o comer e o desenvolver a fala. O profissional precisa saber cuidar das duas áreas e inserir estratégias para ajudar.
Comer e falar pode ser um grande desafio para algumas crianças.
Elas e vocês podem e devem receber ajuda.
Obrigada por lerem este post.
Um abraço carinhoso e cheio de acolhimento para quem está passando por estas dificuldades.

Texto escrito por: Dra. Elisabete Giusti. Fonoaudióloga especializada em transtornos da fala e da linguagem. Expertise em transtornos motores de fala. www.atrasonafala.com.br

Texto referência: Results of the sensory profile in children with suspected Childhood Apraxia of Speech. Phys Occup Ther Pediatr. 2009;29(2):203-18. doi: 10.1080/01942630902805202.

Sugestão de leitura: E-Book: Cinco passos para vencer a resistência da criança em experimentar novos alimentos. Escrito por uma Colega muito querida: Dra. Fabíola Flabiano Almeida. Vocês conseguem baixar um exemplar gratuitamente pela internet. 

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